A Sociedade Temidamente Destemida

Há algumas semanas fui dar uma palestra sobre dois temas bastante solicitados por parte das organizações: auto-cuidado e bem-estar.

No mundo do trabalho, a saúde mental é uma pauta permanente. Afinal, toda e qualquer organização é feita de pessoas. E cada pessoa traz uma história, um repertório de experiências e, claro, também desafios próprios. Portanto, quando adentramos em uma organização e nos deparamos com pessoas, equipes e lideranças…estamos falando de seres humanos. E todo nós precisamos de cuidados – físicos, mentais e emocionais.

Além do tema saúde mental, outros assuntos foram debatidos: adaptabilidade, a cultura do erro, colaboração e resiliência. E olha, não se falou de entregas, resultados, performances, tampouco de metas.

Foi um grande bate papo,porque não consigo dar palestra. Entendo que estou lá para dialogar com tudo que há em cada um, de uma forma horizontal, não hierarquizada. Todos temos dúvidas, medos, dificuldades… Talvez o que não se sabe é que a a grande sabedoria existe, sim. Mas há por aí uma crença que o que  o que não se vê, não pode ser legitimado. Este é um ponto importante: que espaço nos damos para conversar, para nos perguntar e descobrir o que já sabemos?  Qual espaço nos permitimos para legitimar o que sabemos e tomar decisões com a nossa própria sabedoria?

Para mim e provavelmente para muitos, vivemos um tempo de mudanças. E quando nos damos conta, percebemos nossos “pilares”, nossas certezas caírem por terra.  Nessas horas, nos vemos cansados até a exaustão e mortos de medo de tudo.  Ao olhar para a minha relação com o medo, descubro que passo por cima dela. Mas às vezes internamente dizemos outra coisa.  Porém lá comigo mesma, silencio o medo e sigo em frente… Percebi o custo que isso teve: cansaço enorme, perda de relações importantes, déficit financeiro. Os ganhos? Cresci, me transformei… ganhei mais dinheiro… aprendi muitas coisas novas. Mas o principal custo esteve no cansaço e na tensão, na falta de desfrutar da vida por viver no medo e não perceber.

A grande lição foi justamente essa: parar e olhar para tudo isso.  Escutar o medo e dialogar com ele. Ao escutar o medo, tenho a possibilidade de me cuidar, dimensionar, silenciar, acalmar, descansar, realizar.  Comecei a cuidar daquilo que precisava cuidar: da minha relação com meu corpo e minha saúde, minha relação com o dinheiro e a saúde financeira. Minha relação com meus filhos e fazer desse espaço um lugar de desfrute e presença. As minhas relações em geral serem mais autenticas.

Culturalmente, temos escutado: “vá sem medo”, “tem que seguir em frente”,“se adaptar e ser resiliente”.  Então, me pergunto: sobre o que estamos dizendo ao falar em adaptabilidade e resiliência?

Minha percepção é que não aprendemos nada disso e precisamos aprender.  Esta é uma demanda do novo mundo: aceitar não saber. Algo novo está chegando e vou precisar aprender. Em geral se parte do tenho que saber: ”como estou neste cargo, tenho que saber”, “como tenho tantos anos, tenho que saber”, “como estudei, tenho que saber”. Mas e se não sei? Aprendemos que não saber é sinal de que há algo errado, perdemos o encantamento e o amor por aprender.

 Adaptabilidade também pede aceitação e abertura. De uma forma geral,  aceitação é a associada a resignação. Tem algo que já não posso fazer, é assim e ponto.  Mas aceitar é algo bem diferente. É se abrir para  receber aquilo que é, que está acontecendo, sem a expectativa de que seja diferente.  Isso demanda escuta, e a escuta parte de um vazio. Desse vazio de ser, de ter que saber, de ter solução. Escutar é presença e disponibilidade. Escutar a si e escutar ao outro.  Escutar qual necessidade: a minha e a do outro.  Escutar o que sinto perante o que acontece, aceita-lo e escolher como vou lidar.

Adaptabilidade envolve conversar, muitas vezes abrir conversas bem difíceis e que não aprendemos a encarar.  Adaptabilidade demanda soltar o controle, viver o dia a dia, um pasito por vez. Deixando que o novo chegue, se faça corpo. Demanda entrega e confiança em si, na vida, nos recursos que temos e os outros têm.

Demanda caminhar para saber e não ter de saber para poder caminhar.

E cada um destes pontos é um mundo. E é tempo de caminhada e aprendizado. Tudo condensado numa palavrinha só. Um mundo inteiro por trás de uma palavra e uma intenção.

Qual é o primeiro pequeno passo que você pode e quer dar em direção a ser mais autêntico e presente? 

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